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O Retrato de uma Igreja Doente (p. 2)

  • 12 de set. de 2017
  • 16 min de leitura

AS SETE IGREJAS

A primeira seção do Apocalipse, que sucede à sua introdução, é uma sequência de sete cartas. Essas epístolas foram endereçadas à congregações reais, que existiam na província romana da Ásia. Em sua ordem, são as comunidades cristãs de Éfeso, Esmirna, Pérgamo, Tiatira, Sardes, Filadélfia e Laodiceia.

O porquê de João ter escolhido especificamente essas sete igrejas é tido por muitos estudiosos como um mistério. Contudo, é provável que ele o fez de forma proposital. Analisando especificamente cada uma delas, nota-se que existem elementos ali presentes que se alinham perfeitamente com fatos ocorridos no desenrolar da história da igreja cristã. Assim, a partir da observação de tais elementos, em conjunto, é plausível concluir que a arranjo das igrejas seja uma forma ilustrativa de se descrever, a partir de situações reais, a condição da igreja cristã no decorrer dos séculos (WHITE, 2007, 585). Outros elementos que reforçam essa compreensão são: 1) os paralelos com as profecias de Daniel; 2) as predições evidentes, como acontece quando João diz “terei tribulação de dez dias” (Ap. 2.10), um evento ainda futuro; e 3) as evidências de cumprimento no decorrer da história cristã (MAXWELL, p. 94).


Éfeso

A primeira carta endereçada por João é à igreja de Éfeso (Ap. 2.1-7), que atualmente está localizada a cerca de quinze quilômetros da baía, em uma planície pantanosa. Porém, no final do primeiro século, esta era uma próspera cidade da Ásia Menor, sendo também um centro religioso de adoração à deusa Ártemis. Além disso, era também um lugar conhecido como o ponto culminante das práticas místicas e supersticiosas (LADD, p. 30). Apesar de não ser a capital da província romana da Ásia, papel este que era desempenhado por Pérgamo, “sua localização na extremidade de uma importante rodovia, que atravessava a província de leste a oeste, certamente contribuiu para torná-la um grande centro comercial” (MAXWELL, p. 99).

Na descrição feita por João, essa igreja é apresentada como aquela que havia perdido o amor. Essa falta, contudo, é contrastada com suas obras e paciência, aqui rotuladas como pontos positivos. Cristo, intitulado como Aquele que anda entre os sete candeeiros, promete dar ao vencedor desta igreja acesso ao paraíso de Deus.

Pela descrição, referente sim a uma igreja real daquele período, e partindo da premissa de que essas cartas fazem também alusões à períodos históricos, entende-se que a epístola joanina aos efésios aponte para o período em que o próprio apóstolo vivia, partindo do ministério de Cristo até o final daquele século.

Esta era uma igreja que há pouco havia convivido com Cristo, e Seus ensinos ainda estavam vivos na memória de todos. Se as pessoas que ouviram e viram o Mestre já não mais estivessem vivas, seus filhos ou discípulos ainda não havia morrido. Contudo, apesar de as palavras de Jesus ainda ecoarem no coração do povo, parecia que o zelo já não era mais o mesmo. Nesse período, a igreja havia sim perdido seu primeiro amor, e isso é um fato histórico mas o mais interessante seja o fato de que suas crenças ainda eram radiantes, em um padrão de fé que hoje, em pleno século XXI, precisamos voltar a ter (MAAXWELL, p. 123).


Esmirna

A segunda carta de João é direcionada à cidade de Esmirna (Ap. 2.8-11). Localizada há pouco mais de cinquenta quilômetros ao norte de Éfeso, era um próspero ponto marítimo. Sua cooperação com Roma vinha de longa data, e isso fez com que ela fosse diversas vezes favorecida, até mesmo competindo com Éfeso no título de principal cidade da Ásia. Um exemplo disso pode ser visto na construção de um templo ao imperador Tibério, obra que foi edificada unicamente em Esmirna.

Ao que o texto indica, nessa cidade havia um hostil grupo judaico. Registros históricos apontam que esse grupo, anos mais tarde, se uniria às autoridades civis e pagãs para, juntos, causarem a morte de Policarpo, o bispo da igreja. Essa realidade, porém, é contrastada com a comunidade cristã da região, que é descrita por João sem um único ponto negativo (LADD, p. 34).

Além de não possuir falta alguma, Esmirna é elogiada por conta da perseguição que vinha sofrendo, pois isso era um reflexo de sua fidelidade a Cristo, aqui descrito como Aquele que esteve morto, mas agora vivia. Aos vencedores dessa igreja foi prometida parte na primeira das duas ressurreições, que Paulo descreve como o momento singular onde Jesus voltará para buscar todos aqueles que se entregaram por completo em Suas mãos (1Ts. 4.13-18).

Por essa tão significativa descrição, entende-se que a carta à igreja de Esmirna aponte para o intervalo que vai desde meados do ano 100AD até o quarto século da nossa era. Esse foi o período histórico em que a igreja cristã foi atropelada por terríveis perseguições da parte do império romano pagão. Dentre essas talvez a mais significativa tenha sido aquela movida por Diocleciano, em 313AD. Nesse período os cristão viam-se ameaçados por todas as partes, com breves momentos de calmaria, que logo terminavam em mais perseguições ordenadas pelos imperadores (GONZALES, 1995a, p. 78).

Um ponto importante que precisa ser ressaltado é que, por mais que essa igreja tenha recebido somente elogios, registros históricos apontam que, por detrás das perseguições, verdadeiras aberrações se desenvolveram no que diz respeito à teologia. Contudo, perante Cristo, a perseverança dessas pessoas ante a tribulação os tornou dignos aos olhos de Cristo (MAXWELL, p. 123).


Pérgamo

A existência de uma igreja nesta cidade era um feito um tanto quanto louvável. Pérgamo, em sua essência, era completamente pagã. Outrora um reino de mesmo nome, foi transferida por Átalo III, em seu testamento, para o governo de Roma, desenvolvendo-se como a capital da província e um ponto de adoração ao imperador. Além disso, era também um centro de veneração à outras deidades. Havia, por exemplo, um belo templo à Zeus na parte elevada da cidade, ladeado de perto por uma construção dedicada à Atenas (LADD, p. 36). Seu posicionamento geográfico também era bastante favorecido. A cidade estava construída no espigão de uma elevada montanha, o que lhe dava mais segurança frente ao ataque dos inimigos (MAXWELL, p. 103). Porém, neste lugar tão improvável, desenvolveu-se uma comunidade cristã, e é a esse grupo que João direcionou sua terceira carta (Ap. 2.12-17).

O apóstolo descreve essa igreja como aquela que havia se unido com o estado, algo completamente reprovável. Talvez seja por essa razão que Cristo tenha sido descrito como tendo a espada de dois gumes – uma provável crítica há um povo que havia relaxado diante das práticas pagãs (LADD, p. 37).

Porém, apesar dessa perigosa falha, Pérgamo ainda continha pontos positivos, dentre os quais João salienta o louvável ato de ainda permanecerem firmes, não negando sua fé. Por essa razão, àqueles que persistissem até o final, Deus lhes concederia uma pedra branca com um novo nome (Ap. 2.17).

Essas características apontam para o período que se estendeu do começo do quarto século até 538AD. Nesse intervalo de tempo, a igreja continuava sendo perseguida. Contudo, o que aqui se desenvolveu foi algo perigoso. Misturado à verdadeira e genuína fé estava um sincretismo maligno, que crescia diariamente, mesclando o santo com o profano. Por mais que a igreja, nesse intervalo, tenha dedicado uma atenção maior à Jesus – o que pode ser visto nos diversos Concílios em que procuravam entende-lO –, as heresias pagãs estavam cada vez mais deixando de ser algo externo para tornar-se parte do corpo de crenças.


Tiatira

De todas as sete cidades, talvez essa seja a de menor importância, ao menos no aspecto histórico. Tiatira não se destacava no sentido de adoração, nem tampouco tinha uma grande comunidade de opositores à igreja cristã da região (LADD, p. 40). Contudo, o problema aqui identificado por João era muito mais sério do que havia nas demais cidade.

Em sua carta (Ap. 2.18-29), o apóstolo comenta sobre uma grave falta. Os cristãos daqui estava misturando-se aos gentios não convertidos. Isso acontecia justamente pelo único ponto de destaque de Tiatira. A cidade possuía diversas corporações de comércio, e trabalhar em qualquer área sem filiar-se a alguma dessas entidades era quase impossível. A questão era que, ocasionalmente, essas sociedades promoviam festas dedicadas a alguma divindade, e essas comemorações sempre terminavam em práticas depravadas (LADD, p. 40). Como se isso não bastasse, a igreja também estava sendo influenciada por uma falsa profetiza, aqui comparada com a infame Jezabel, esposa do rei Acabe (cf. 1Rs. 18.18,19; 21.25,26). Entretanto, os crentes dessa comunidade não eram por ela iludidos. Bem pelo contrário, cientes de seus falsos ensinos, a toleravam diariamente (Ap. 2.20).

Por essas e outras características, é bem provável que esta carta aponte para o período mais obscuro da igreja cristã, que se estendeu de 538AD até 1565. A partir da conversão de Constantino, em 312AD, a igreja até então perseguida recebeu poder justamente do Estado, e seu status foi alterado drasticamente. Contudo, a fé antes genuína não permaneceu assim tão límpida. Um exemplo disso pode ser tirado da vida do próprio Constantino, que apesar de professar sua fé no Deus cristão, ainda participava de cerimônia e rituais pagãos (GONZALES, 1995b, p. 30). De certa forma, essa conversão nominal não somente cessou a terrível perseguição, mas também permitiu que os costumes mundanos fossem introduzidos na igreja (WHITE, 2005, p. 50).

De perseguida, a igreja tornou-se então perseguidora, massacrando toda e qualquer forma plural de adoração. Isso era feito em nome de uma purificação das heresias pagãs. O que a igreja não percebia, todavia, era que ela mesma já estava contaminada com aquilo que tentava aniquilar. O ponto nevrálgico de toda essa corrupção era, certamente, a pronta disposição dos líderes em substituir o padrão divino por uma métrica humana. Formava-se, assim, uma forma paganizada de cristianismo (MAXWELL, p. 125).


Sardes

A quinta epístola joanina é direcionada à Sardes (Ap. 3.1-6), uma cidade até mesmo obscurecida frente à gloria de seu passado. Por volta do sexto século a.C., essa havia sido a capital da Lídia, e mais tarde tornou-se um centro comercial dos persas. Contudo, nos dias em que João escreveu sua carta, Sardes nada mais era do que uma pequena cidade por onde passavam grandes estradas romanas e uma referência na produção de derivados de lã e tinturaria. Sua localização era, assim como Pérgamo, extremamente favorecida. Considerada até mesmo inexpugnável, havia sido construída na crista de uma elevada montanha, e toda a cidade estava a cerca de trezentos metros acima do nível do vale (MAXWELL, p. 109). No âmbito religioso, seu culto mais importante era à deusa Cibele (LADD, p. 44).

É interessante perceber que o apóstolo não faz menção a problemas ou intensas perseguições à igreja de Sardes. A comunidade cristã dessa região, entretanto, enfrentava dificuldades de outra natureza. Segundo João, sua principal falta era uma pujante morte espiritual.

Por essas e outras características, entende-se que essa epístola aponte para o período de dois séculos que se deu após o início da Reforma Protestante, por volta de 1500, até a quarta década do século XVIII. Após o brilho inicial dos movimentos reformadores, a igreja estagnou novamente. Não mais eram feitos grandes avanços, e o povo vivia daquilo que já havia sido feito. Assim, “ao repousar sobre a reputação que adquirira na Reforma, Sardes tinha ‘nome’ de que vivia, mas em grande medida estava ‘morta’” (MAXWELL, p. 129).


Filadélfia

A penúltima das sete igrejas é Filadélfia (Ap. 3.7-13). Esta jovem cidade, assim como Tiatira, localizava-se numa ampla colina entre dois vales bastante férteis. Um destes oferecia um portal natural através das montanhas localizadas ao leste. Um fato curioso era que, ocasionalmente, Filadélfia era sacudida por terremotos. Talvez fosse por isso que o povo daqui, provavelmente atemorizado, havia escolhido deixar a região urbana e viver na área rural (MAXWELL, p. 111).

No aspecto religiosos, a cidade concentrava seu culto pagão ao deus Dionísio. Mas parece que, para João, esse não era o pior dos problemas. Ao que tudo indica, a pedra no sapato da comunidade cristã de Filadélfia eram os judeus, e nem tanto os gentios. Contudo, repetindo a mesma situação antes vista em Esmirna, o apóstolo descreve essa igreja sem qualquer mácula (LADD, p. 46). Apesar de fraca e pobre, os crentes dessa região mantinham-se fervorosos e firmes em sua fé (Ap. 3.8).

Cristo, aqui descrito como Santo e Verdadeiro, surge com a promessa de que aos vencedores seria concedido acesso à Nova Jerusalém – mais tarde descrita em detalhes por João (Ap. 21.9-27).

Portanto, seguindo a sequência histórica apresentada pelas demais cartas, é plausível entender Filadélfia como uma analogia profética ao período de tempo ao redor do século XIX. Historicamente falando, foi nesse momento em que houve uma explosão dos movimentos missionários ao redor do mundo, como, por exemplo, aquele liderado por John Wesley – que posteriormente daria origem à igreja Metodista (MAXWELL, p. 132). Foi também dentro desse espaço de tempo que ocorreram as pregações de William Miller, que provocaram grande reavivamento na nação norte-americana, mas que terminaram no triste evento conhecido como Grande Desapontamento (SCHWARZ; GREENLEAF, p. 49).


Laodiceia

Eis que, após seis sucessivas igrejas, enfim chegamos àquela que é nosso objeto de atenção. A última das cartas joaninas é posta com destino à igreja presente em Laodiceia (Ap. 3.14-22).

Localizada no entroncamento de três importantes estradas, a cidade era um ponto de referência na área bancária e também industrial. Seu volume de riquezas era tão elevado que, quando foi sacudida e consideravelmente danificada por um terremoto, na sexta década do primeiro século, Laodiceia optou por não recorrer ao tesouro imperial, como outras cidades o fizeram, mas bancou sua própria reconstrução (LADD, p. 50).

Mas de onde vinha tamanha riqueza? Além de seu próspero desenvolvimento comercial, Laodiceia resguardava a patente sobre mercadoria únicas. Uma lã preta, muito apreciada e de grande valor, era fabricada unicamente ali sob a forma de vestimentas. Laodiceia também era conhecida pela produção de um eficaz colírio. Além disso, um complexo sistema de aquedutos conduzia as águas quentes, oriundas de fontes termais de colinas ao sul, até o interior da cidade. Essa água chegava morna, em um estado impróprio para o consumo, mas ideal para o banho (MAXWELL, p. 114).

Contudo, apesar dessas boas descrições com respeito a cidade, a epístola de João traz palavras duras à igreja daquela região. O povo é descrito como estando morno, assim como a água, que não chegava a ser frio ou quente – em um estado lamentável e que provocava a repulsa do próprio Deus (Ap. 3.16).

O que havia de positivo em Filadélfia não é encontrado em Laodiceia. O amor fraternal foi substituído por apatia e presunção. E para qual período histórico tal carta aponta? Infelizmente, justamente para o momento em que vivemos. A partir de 1844, é dado início a um novo período da igreja cristã. O bom momento de Filadélfia é substituído pela preocupante Laodiceia. Cristo está às portas para voltar. Ainda assim, Seu povo vive como se isso não fosse verdade, fazendo pouco caso ou até mesmo nem se importando.

Para se ter uma ideia, em 1980 foi feito um levantamento pelo Christianity Today, um importante periódico cristão. Os pesquisadores conversaram com católicos e protestantes, e o resultado obtido foi, no mínimo, alarmante. De todos os entrevistados, 94% acreditavam em Deus, 79% se diziam convertidos, 45% criam na salvação através de Cristo, 24% frequentavam semanalmente a igreja e assombrosos 42% não eram capazes de citar mais do que quatro dos Dez mandamentos (MAXWELL, p. 135).


POR QUE LAODICEIA?

Observando o quadro da página anterior, que sintetiza aquilo que já foi trabalhado até agora, é possível perceber que as duas igrejas descritas sem falta alguma são Esmirna e Filadélfia. Entretanto, também é preocupante notar que a única igreja sem qualquer mérito é Laodiceia. No momento mais agressivo da história do cristianismo, quando a igreja havia se misturado ao paganismo, Cristo ainda destacou alguns aspectos positivos em relação àquele povo. Foi assim com Tiatira, na terrível Idade Média. Mas Laodiceia consegue ser ainda pior. Além de enfrentar um grande problema, também não possui nenhuma boa característica.

A grande questão é sobre o porquê de sermos chamados de Laodiceia. A Bíblia fala sobre um remanescente, e costumamos entender que nós somos tal povo. Afinal, estamos no final da história desse mundo. Entretanto, como pode um remanescente ser também chamado de Laodiceia? É possível harmonizar isso? Para responder essa e qualquer outra indagação que possa surgir, é preciso definir uma solução para a pergunta inicial: por que a igreja cristã de nosso tempo é chamado de Laodiceia?


O Evangelho Adocicado

Nos dias atuais, falar sobre Deus evoca a figura de um Ser paternal e amoroso. Esse traço de caráter é verdadeiro e extremamente importante. Contudo, têm-se constantemente deixado de lado o panorama completo de quem realmente é Deus. Muitos pregadores se esforçam para encucar na mente dos fiéis de que Deus é tão bondoso que será capaz de perdoar qualquer pecado. Mas essa é uma mentira do pior tipo.

A Bíblia deixa claro que, mesmo Deus sendo completamente amoroso, ele executa a justiça e pune aqueles que O rejeitam (cf. Jr. 14.1-15.9). Mas isso não anula o caráter amoroso do Senhor. Bem pelo contrário: o confirma.

É dentro desse pensamento que entendemos o inferno. O livro do Apocalipse fala sobre um momento na história em que Deus executará Seu santo juízo. Todos aqueles que insistirem em permanecer com seus trapos de imundícia (cf. Is. 64.6) ao invés de lavar suas vestiduras no sangue do Cordeiro (Ap. 22.14) serão destruídos para todo o sempre. E isso anula a bondade de Deus? Claro que não. Afinal, todos os demais, que pela história entregaram-se por completo a Cristo, estarão a salvo dentro da Nova Jerusalém (Ap. 7; 21.9-22.7), de onde partirão para viver em um mundo refeito e restaurado (Ap. 21.1-8).

Contudo, essa mensagem poderosa já não mais está sendo pregada. Os oradores dos nossos dias se esforçam para falar somente do amor. É comentado tanto sobre esperança, mas nada sobre juízo. Falam sobre perdão, mas não a respeito de punição. É definido que Deus é longânimo em restaurar um pecador, mas silenciam com respeito a Sua ira contra aquilo e/ou aquele que é impuro.

Essa mensagem, diluída e tão adocicada, é capaz de criar cristãos superficiais e espiritualmente diabéticos. Diariamente a igreja empobrece em sua fé por conta dos defensores dessa falsa doutrina. O cristianismo verdadeiro parece já não mais se basear na fidelidade ao Senhor, mas no quanto Ele pode ser bom a nós, e esse, com toda certeza, é um dos motivos de hoje sermos considerados mornos e insossos.


O Cristão Centralizador

A pregação de um evangelho diluído e que não exija tantas mudanças daquele que se diz cristão acaba gerando um problema secundário, mas de gravidade ainda maior. As pessoas passam a buscar a Deus não para obter dEle o direcionamento para sua vida, mas para encontrar alguma palavra que conforte seu coração. Alguns, ao verem tão frase, concordarão e ainda complementarão. Afinal, é por isso que muitos vão à igreja. Contudo, esse tipo de pensamento, cada vez mais comum em nosso meio, tem feito que a centralidade de nossa fé não esteja mais em Deus, mas em nós mesmos.

Deus deixa de ser o Soberano em minha vida e passa a ser um gênio da lâmpada, munido de poderes sobrenaturais e que está vinte e quatro horas por dia a disposição de minha oração. A pessoa procura a Deus não para que Ele diga o que está certo ou errado em seu comportamento, mas para que o Senhor atenda a sua vontade. Ao invés de minha fé flutuar ao redor do Sol da justiça, ela paira no entorno dos desejos do meu coração.

Mas isso é perigoso, e jamais deveria ser verdadeiro na vida de um cristão. O coração do homem é mau, corrompido por natureza (Jr. 17.9; Mt. 15.19,20). Basear a fé nessa métrica falha é rebaixar Deus ao nível da criatura. É trazer o Santo para mais perto do que é pecador. É buscar ao Senhor somente como uma desculpa, pois o que realmente é desejado são coisas mundanas e superficiais.

Um exemplo de como esse tipo de pensamento está tornando-se cada vez mais frequente é a infame Teologia da Prosperidade. De teologia, honestamente falando, aqui não há nada. Esse pensamento afirma, baseado em textos como Malaquias 3.10, que se formos fiéis a Deus, Ele então terá de nos cobrir de bênçãos. Mas onde está o centro dessa afirmação? Sobre o Deus que concede bênçãos e maldições ou sobre o pecador, que por dar dinheiro faz com que o Criador do Universo entre em dívida consigo. Pode não parecer em princípio, mas esse pensamento é absurdo e um tanto quanto perigoso. Na verdade, esta é mais uma das peças que se encaixam, formando a imagem desse quebra-cabeça chamado Laodiceia.


A (Aparente) Demora de Cristo

Contudo, apesar de os dois últimos exemplos serem fortes características de uma igreja doente, eles não explicam o motivo de estarmos assim. São apenas consequências, mas não causadores. Sendo assim, qual é a razão primária para essa mornidão do povo de Deus? Talvez seja o fato de ainda estamos por aqui.

Desde que Abraão foi chamado à sua missão, mais de três milênios se passaram (SCHULTZ, p. 60). Os patriarcas nasceram, cumpriram seu propósito e depois morreram. O povo hebreu desceu ao Egito para, muitos anos depois, ser liberto com grande manifestação de poder. A nação de Israel se formou, se consolidou, se dividiu, e, por fim, caiu. Jesus veio à esse mundo, nos ensinou o verdadeiro caminho. Foi morto, crucificado, mas ressuscitou. E, por estar hoje vivo, inspirou homens e mulheres a pregarem essa preciosa mensagem, que explodiu pelo mundo, através de geração, rompendo barreiras, chegando até eu e você.

Contudo, alguns olham para essa tão linda história de fé com olhos de descrença. Vozes que se levantam dos bancos da igreja insistem em afirmar que, apesar de Deus ter realizado grandiosos milagres no passado, isso já não mais acontece hoje. E a premissa básica para essa argumentação está no fato de que Cristo ainda não voltou.

Essa ansiedade e frustração são, na verdade, um reflexo de uma geração imediatista, ansiosa e depressiva. As pessoas olham para a Bíblia e o mundo espiritual não com o olhar de fé, mas com seu afobado entendimento. E, por perceberem que as promessas aparentemente tardam em se cumprir, acabam perdendo sua fé – bastante fraca, diga-se de passagem – e passam a ser cristãos descrentes.

Contudo, se mantivéssemos nossos olhos atentos aos inúmeros sinais apresentados pelo mundo natural e também pelo ambiente religioso, jamais desanimaríamos de nossas crenças. Quando perdermos de vista a urgente verdade de que Cristo está prestes a voltar, passamos a viver de forma descomprometida, afinal, como pensam alguns, ainda há muito tempo. Mas o que temos de entender é que esse tempo pode não ser assim tão grande. Se Ele não voltar nos próximos dias, podemos nós morrer há qualquer momento. E, se isso acontecer, como será selado nosso destino?

Se a igreja cristã é chamada, em seus últimos dias, de Laodiceia, é por que perdeu a urgência de se preparar para o Dia do Juízo. Contudo, a Bíblia fala de grandes tribulações que ainda virão sobre o povo de Deus. E isso não acontecerá como uma prova do desagrado divino, mas como uma mostra de que Ele está atuando para, mais uma vez, voltar a ter um povo de coração genuíno, não movido pela sensação do imediato, mas imbuído de uma extrema urgência e de uma fé embasada unicamente nEle.

O momento pelo qual passamos é preocupante e alarmante. A mornidão da igreja soma-se a realidade do final da história. “Terrível é a crise para a qual caminha o mundo” (WHITE, 2005, p. 604), e “apenas os que forem diligentes estudantes das Escrituras, e receberem o amor da verdade, estarão ao abrigo dos poderosos enganos que dominam o mundo” (WHITE, 2005, p. 625).


A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO

Por fim, uma última ilustração serve para concluir o pensamento até aqui desenvolvido. No capítulo quinze do evangelho de Lucas, do verso onze até o trinta e dois, é descrita a ocasião em que Cristo contou a parábola do filho pródigo. Muitas vezes, porém, olhamos essa história focando somente nos dois principais personagens: o pai e o filho mais novo. Entretanto, o contexto imediato da parábola aponta para um terceiro elemento.

Aquele Senhor possuía dois filhos. O caçula foi aquele que foi embora, fez diversas coisas erradas, mas arrependeu-se e buscou o perdão do pai. Porém, há também o filho mais velho. O primogênito foi aquele que nunca saiu de perto do pai, que sempre esteve ali. Mas essa parábola nos traz três importantes lições: 1) Deus está disposto a nos perdoar, desde que, primeiro, abandonemos nosso eu pecaminoso e nossas práticas errôneas; 2) mesmo que nos afastemos de Seus caminhos, enquanto a porta da Graça estiver aberta ainda poderemos voltar e encontrar a misericórdia divina; e 3) estar dentro da igreja e seguir todos os mandamentos de Deus não é garantia de salvação, especialmente se estivermos fazendo isso sem ter um coração completamente convertido

Ser Laodiceia é perigoso. É agir como o filho mais velho, adequadamente descrito como um “sepulcro caiado” (Mt. 23.27). De nada vale estarmos na igreja, fazendo as cosias da forma certa, se formos mornos. O convite de Deus é para que tenhamos o coração ardendo com o evangelho (Lc. 24.32), deixando de lado o rótulo de Laodiceia para sermos verdadeiramente considerados como povo remanescente de Deus.



BIBLIOGRAFIA

FEE, G. D; SUART, D. Entendes o que lês? Um guia para entender a Bíblia com auxílio da exegese e da hermenêutica. São Paulo: Vida Nova, 2011.

GONZALES, J. L. E até os confins da terra: uma história ilustrada do cristianismo: a era dos mártires. São Paulo: Vida Nova, 1995.

GONZALES, J. L. E até os confins da terra: uma história ilustrada do cristianismo: a era dos gigantes. São Paulo: Vida Nova, 1995.

LADD, G. E. Apocalipse: introdução e comentário. São Paulo: Mundo Cristão, 1980.

MAXWELL, C. M. Uma nova era segundo as profecias do Apocalipse. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2008.

SCHULTZ, S. J. A história de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 2009.

SCHWARZ, R. W; GREENLEAF, F. Portadores de Luz: história da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Engenheiro Coelho: UNASPRESS, 2009.

WHITE, E. G. Atos dos Apóstolos. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2007.

WHITE, E. G. O Grande Conflito. Tatuí: Casa Publicadora Brasileira, 2005.

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