O Retrato de uma Igreja Doente (p. 1)
- 7 de set. de 2017
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Quando uma pessoa se propõe a estudar seriamente a Bíblia, logo perceberá que as Sagradas Escrituras não possuem seções bem definidas que tratam sobre assuntos específicos. Por mais que a primeira carta de Paulo à igreja de Corinto tenha uma longa declaração sobre o real sentido do amor, o capítulo treze não encerra tudo sobre o assunto, e facilmente encontraremos outras passagens que tratam do mesmo tema.
Dessa forma, pode-se definir a Bíblia não como temática, organizada por grupos, mas como temporal, fortemente interligada ao contexto em que cada autor humano vivenciava quando seu livro foi produzido. Com esse pensamento, conseguimos olhar para a história da formação do povo de Israel e identificar muitas narrativas maravilhosas. Vemos um Deus que libertou com mão forte Seu povo da escravidão através de espantosos milagres (Êx. 7-12), até mesmo abrindo o mar vermelho para que eles fugissem do Faraó (Êx. 14). Contudo, quando a história avança, muitos séculos após a instalação dos israelitas na terra prometida, depois até mesmo do fim da monarquia unificada, notamos que a temática não mais tem que ver com a guia de Deus, mas com Seus juízos sobre um povo que permanentemente manteve-se fora de Seus retos caminhos. Foi nesse contexto que surgiram os profetas. Homens e mulheres que pagaram até mesmo com a própria vida para pregar as verdades recebidas do próprio Deus.
E, assim como o foi nos dias do Antigo Testamento, a mesma história se repetiu nos primeiros anos da nossa era. Depois de Cristo vir a esse mundo, ensinar, morrer, ressuscitar e ascender ao Céu, Ele designou uma última mensagem para Seu povo. Um oráculo foi destinado para um povo massacrado por uma feroz perseguição romana. Porém, o resultado dessa derradeira visão não somente ficou restrito aos dias de João, seu autor, mas também avançou através das eras, chegando até os nossos dias. Esse livro, conhecido hoje como Apocalipse, não surge somente como um acalento a um povo oprimido, mas como um aviso – até mesmo um alerta – àqueles que viveriam nos dias finais desse mundo. Assim, “quando Jesus revelou […] as cenas do segundo advento, predisse também a experiência de Seu povo desde o tempo em que deveria ser tirado entre eles até a Sua volta em poder e glória para a sua libertação” (WHITE, 2005, p. 39).
AS PREMISSAS BÁSICAS Nosso propósito, assim, será analisar a mensagem do livro do Apocalipse, com ênfase nas sete cartas de João – as mesmas que servem de introdução ao livro. Porém, antes de partirmos para o livro, é necessário estabelecer algumas premissas básicas.
Dependendo da forma como chegamos a um texto, nossa compreensão sobre o mesmo será de determinada maneira. Por exemplo: se o leitor for alguém que crê em uma realidade sobrenatural, ele lerá o relato dos evangelhos e verá com grande emoção os milagres de Cristo, Sua ressurreição, os atos dos apóstolos, dentre tantos outros eventos. Sua conclusão, assim, será de que Deus não só existe, como também atua em prol de Seu povo. Entretanto, se o mesmo leitor for alguém que não crê no sobrenatural, dificilmente verá as curas de Cristo como milagres, e certamente tentará encontrar explicações aparentemente lógicas para desmitologizar a narrativa. Esse leitor dificilmente chegará à conclusão de que Deus intervém na história – isso se acreditar na existência de alguma divindade.
Portanto, os pressupostos fazem sim toda a diferença. Quando lemos algum narrativa, especialmente a Bíblia, “aquilo que levamos para o texto nos desencaminha ou nos leva a atribuir ao texto ideias que lhes são estranhas, mesmo quando isso não é nossa intenção” (FEE, STUART, p. 25).
Público primário
O profeta Isaías declara, na introdução de seu livro, que as visões lhe foram dadas “nos dias de Uzias, Jotão, Acaz e Ezequias, reis de Judá” (Is. 1.1). Algo similar é dito por Jeremias, ao declarar que “a ele veio a palavra do Senhor, nos dias de Josias, filho de Amon e rei de Judá, no décimo terceiro ano do seu reinado” (Jr. 1.1,2). Esses dois textos servem de exemplo para uma realidade maior. Cada livro da Bíblia foi escrito para um público alvo, e este não somos nós, leitores modernos. Quando Paulo compôs suas cartas às igrejas de Roma, Filipos, Tessalônica, e tantas outras, escreveu para os romanos, filipenses e tessalonicenses. Esse foi o público original de cada epístola. Na verdade, isso acontece com todos os sessenta e seis livros da Bíblia. Conhecer o pano de fundo e o público para o qual os livros foram destinados tem grande peso no entendimento do relato. “Há uma grande diferença na compreensão do texto quando se tem conhecimento do pano de fundo de Amós, Oséias e Isaías, ou quando se sabe que Ageu profetizou depois do exílio, ou quando se conhece as expectativas messiânicas quando João Batista e Jesus apareceram no cenário” (FEE, STUART, p. 34).
Público secundário Ao entender, dessa forma, que não somos o público primário da Bíblia, surge uma natural dúvida: quanto desse material nos atinge? Essa pergunta é um tanto quanto subjetiva. Afinal, qual métrica deve ser usada? Nossa consciência sobre o que é certo ou errado? É um tanto quanto perigoso seguir por esse caminho. O texto de Mateus 15.19 afirma categoricamente que os maus intentos procedem do coração, e Jeremias 17.9 completa esse pensamento ao afirmar que somos desesperadamente corruptos. E não há nenhuma surpresa com essa afirmação, afinal, o pecado nada mais é do que a separação entre Deus e o homem (Is. 59.2). Afastados do Senhor, o padrão em excelência de bondade (Sl. 100), tomamos rumos errados. Dessa forma, dizer que o homem é o padrão que pode definir quanto da Bíblia se aplica em nossos dias é um pensamento um tanto quanto equivocado. Que não somos o público primário, isso é fato. Mas como público secundário, precisamos apenas entender que os elementos ali presentes se aplicavam inteiramente a cultura da época. Porém, esses mesmos elementos nos alcançam hoje. E quem é o responsável por isso? O mesmo Espírito que um dia inspirou os profetas a comporem a Bíblia é aquele que hoje fala a cada um de nós (2Pe. 1.20,21). Não podemos, assim, descartar o contexto cultural da Bíblia. Sem isso, teremos uma visão turva e deturpada do relato bíblico. Mas é de porte dessa primeira certeza que podemos ouvir o Espírito ainda falando a nós, utilizando os erros e acertos do passado para nos revelar duas importantes verdades: 1) Deus sempre acompanhou seu povo, quer seja nos bons ou nos maus momentos; e 2) Ele é justo e amoroso, punindo a injustiça e salvando aqueles que se colocam por completo aos Seus pés (Na. 1.1-3).
Autoria e Composição Definida a premissa básica de leitura, que pode ser aplicada ao estudo de toda Escritura, agora seguiremos para o livro em foco. Atualmente, falar sobre algo apocalíptico evoca um conceito de término. Porém, esse sentido foi atribuído sobre o termo muito recentemente. O título deste livro de João foi dado por conta do termo grego αποκάλυψις (apokalypsis), que literalmente significa revelar, no sentido de tirar o véu. Dessa forma, dentro do pensamento grego, apocalipse não está relacionado ao fim do mundo, mas sim com o sentido de trazer para luz algo que estava obscuro. A introdução do livro aponta para um autor chamado João. Ao que tudo indica, esse é o mesmo João que seguiu Jesus como um de Seus apóstolos (LADD, p. 8). Dessa forma, o livro foi composto durante um terrível período de perseguição no qual o discípulo foi levado cativo para a ilha de Patmos. Isso ocorreu na última década do primeiro século, quando Domiciano era imperador. Essa ideia é corroborada por Irineu, bispo de Lion na Gália (Contra Heresias, V.xxx.iii), conforme citado por George E. Ladd (1980, p. 9) que afirmou que o livro “surgiu faz não muito tempo, perto do fim do reinado de Domiciano, quase na nossa geração”. O livro do Apocalipse, contudo, não se propõe a trabalhar exclusivamente um relato sobre o fim do mundo. Na verdade, existem seis pilares básicos sobre os quais a narrativa apocalíptica é construída: 1) Jesus Cristo; 2) Deus; 3) o santuário celestial e a sala do trono; 4) a cruz e o evangelho; 5) a igreja; e 6) o fim do mundo. A partir desses seis pilares conseguimos ter uma ideia mais abrangente sobre os assuntos trabalhados no último livro da Bíblia.
[CONTINUA]
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